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Escola Bíblica Dominical - 4º Trimestre 2017 - Lição Nr 12

Canal Luisa Criativa

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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

MISSÕES 1...



A imigração e a evangelização na história missionária

O cristianismo nasceu com uma vocação de universalidade. Os documentos fundantes da igreja deixam claro que a mensagem cristã – o evangelho – deveria ser proclamada indistintamente a pessoas de todos os povos e nações. Assim sendo, desde o início os cristãos atravessaram intencionalmente fronteiras nacionais, étnicas e culturais. Ao fazer isso, a igreja tanto influenciou quanto foi influenciada pelos ambientes nos quais se inseriu, como ocorreu na transição do seu berço judaico original para o mundo greco-romano.

Como não poderia deixar de ser, esse fenômeno também teve enormes repercussões para a expansão missionária da igreja. A extraordinária mobilidade geográfica dos primeiros cristãos foi um dos principais fatores que contribuíram para a rápida difusão da fé nas primeiras décadas e, de fato, nos primeiros séculos.

O maior responsável pelo crescimento da igreja não foram os esforços metódicos e organizados de líderes como o apóstolo Paulo, mas o testemunho informal de cristãos comuns que por onde iam compartilhavam com as pessoas as suas novas convicções.

1. Um tema bíblico marcante
Curiosamente, essa relação entre fé e mobilidade física é um dos temas salientes das Escrituras. Com muita freqüência, os personagens bíblicos foram indivíduos que se deslocaram por longas distâncias, que viveram como nômades, seja por causa de alguma convocação divina, seja em busca de novas oportunidades ou sob pressão de circunstâncias adversas. Entre os exemplos mais conhecidos do Velho Testamento estão os patriarcas, a começar de Abraão, e os filhos de Israel após a sua libertação do cativeiro egípcio (ver Gn 12.1; 23.4; At 7.6; Hb 11.8-10,13). No período do Novo Testamento, Jesus fez o caminho inverso, sendo levado recém-nascido para o Egito, como refugiado da ira de Herodes. Mais tarde, durante o seu ministério itinerante, ele haveria de dizer que não tinha um lugar onde reclinar a cabeça (Mt 8.20).

Não por coincidência, a figura do peregrino, do estrangeiro e do migrante povoa as páginas da Bíblia, como símbolo da vida do cristão neste mundo, caminhando em direção à pátria celeste (ver 1 Pe 1.1,17; 2.11). Às vezes a metáfora aponta na direção oposta, como quando Paulo diz aos gentios efésios que, graças à obra reconciliadora de Deus por meio de Cristo, eles já não são estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus (Ef 2.19). De qualquer modo, a poderosa imagem da peregrinação sempre tem causado forte impacto na consciência cristã e muitas vezes a relação entre fé e migração se manifesta literalmente na vida de muitos cristãos, aqueles que se deslocam por causa de sua fé ou aqueles que, ao se deslocarem, contribuem para a difusão da fé.

2. Alcançando e sendo alcançados
Obviamente, nem sempre na história da igreja os grupos imigrantes foram agentes da evangelização, e sim objeto da mesma. Isso aconteceu com os impressionantes deslocamentos humanos que foram as “invasões” bárbaras na Europa dos séculos quarto e quinto. Na verdade, o que esses povos da Ásia e da Europa oriental fizeram foi migrar para o rico Império Romano em busca de melhores condições de vida. E à medida que foram conquistando, foram conquistados. Chegaram pagãos e se tornaram cristãos. Foi o caso dos francos, burgúndios, vândalos, alanos, suevos e outros. Uma interessante exceção foram os visigodos. Esse povo, oriundo da região do mar Negro, já havia sido cristianizado antes de se deslocar para a Europa ocidental. Todavia, haviam adotado uma forma dissidente de cristianismo, o arianismo, que negava a plena divindade de Cristo. Foi somente mais tarde, quando já haviam se estabelecido firmemente na Península Ibérica, que abraçaram o cristianismo ortodoxo, trinitário.

Também foi curioso o que aconteceu nas Ilhas Britânicas. Nos primeiros séculos da era cristã, o cristianismo se implantou entre vários povos daquela região, notadamente os celtas e os bretões. Não se sabe exatamente como isso aconteceu, mas um nome associado com esse período é o de Patrício, que viveu no quinto século. Todavia, em meados daquele século, dois povos pagãos do norte da Europa, os anglos e os saxões, invadiram a Britânia, que assim passou a chamar-se Inglaterra (terra dos anglos). Esses povos eliminaram boa parte do cristianismo celta e foram eventualmente cristianizados pelos esforços de missionários enviados pelo papa Gregório Magno (590-604). Tais fenômenos se repetiram muitas vezes ao longo da Idade Média. Outra página gloriosa das missões cristãs foi o trabalho dos nestorianos na Ásia, durante muitos séculos. Esse grupo, embora marginalizado pela igreja oficial e considerado herético, levou a mensagem de Cristo a muitos lugares inóspitos e longínquos que nunca haviam sido atingidos pelo cristianismo majoritário.

As grandes navegações e os grandes descobrimentos efetuados pelos espanhóis e portugueses nos séculos 15 e 16 produziram um fato novo: pela primeira vez na história da igreja, grandes contingentes populacionais cristãos se transferiram para outras partes do mundo e contribuíram para a expansão da fé em territórios nunca antes alcançados. Foi o caso de muitas regiões da Ásia e da África, e mais especialmente da América Latina. Na verdade, a conquista e colonização dessa última região foi ao mesmo tempo um empreendimento político, comercial e religioso. Os conquistadores tinham a consciência de estarem expandindo não só os territórios de seus soberanos, mas os domínios da cristandade. Podem ser questionados o tratamento dados aos aborígenes e a qualidade da cristianização dos mesmos, mas trata-se de um caso em que se vê a nítida relação entre a imigração e a difusão da fé cristã.

3. As missões protestantes
É um fato conhecido da história das missões que os protestantes inicialmente foram um tanto lentos em se envolver com a evangelização do mundo. Nos séculos 16 e 17 houve apenas alguns esforços esporádicos e limitados. Todavia, quando esses esforços se tornaram mais organizados e consistentes, a imigração foi um dos recursos que mais contribuíram para a obra missionária. Um bom exemplo inicial foi o dos irmãos morávios, que migraram com suas famílias para muitas regiões difíceis e insalubres com o fim de viver entre outros povos, identificar-se com eles e anunciar-lhes o evangelho.

Todavia, ainda antes dos morávios, outro grupo de migrantes iniciou um experimento que teve amplas conseqüências para o protestantismo e para as missões cristãs – os puritanos da Nova Inglaterra. Os puritanos eram os calvinistas ingleses que lutavam pela plena reforma da Igreja da Inglaterra. Frustrados em seus objetivos e crescentemente reprimidos pelas autoridades seculares e eclesiásticas, resolveram procurar outras terras para viver de acordo com as suas convicções. Após uma breve tentativa mal-sucedida na Holanda, decidiram transferir-se para o Novo Mundo, a América, contribuindo decisivamente para o surgimento dos Estados Unidos. Embora inicialmente eles não tivessem uma motivação missionária, em pouco tempo começaram a evangelizar os indígenas e mais tarde colaboraram para criar uma cultura religiosa que desembocou no gigantesco empreendimento missionário norte-americano do século 19.

Graças à imigração, o protestantismo se tornou a expressão religiosa dominante em muitos outros países, como o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia e a África do Sul, nos quais se radicaram elementos reformados, anglicanos e luteranos, entre outros. Em muitos países, a presença protestante, ainda que minoritária, também obteve o concurso decisivo da imigração. Ao mesmo tempo, não se pode adotar nessa matéria uma atitude triunfalista, porque em muitos casos a imigração e a colonização fizeram mais mal do que bem, produzindo uma verdadeira anti-evangelização. O exemplo clássico é a África do Sul, em que algumas igrejas compactuaram com o perverso sistema de discriminação e opressão racial conhecido como apartheid.

4. A experiência brasileira
Curiosamente, foi no Brasil que ocorreu a primeira tentativa da história do protestantismo mundial no sentido de evangelizar um povo não-cristão. Isso se deu em conexão com uma colônia francesa criada na baía da Guanabara em 1555, a França Antártica. A pedido do líder do empreendimento, Nicholas Durand de Villegaignon, o reformador João Calvino e a Igreja Reformada de Genebra enviaram catorze colonos, entre eles dois pastores. Esses imigrantes-missionários tinham dois objetivos: implantar uma igreja reformada entre os franceses e evangelizar os silvícolas. Nenhum desses objetivos pôde ser alcançado e quatro dos pioneiros acabaram sendo martirizados, mas esse evento se tornou um marco de grande importância na história das missões, nem sempre caracterizadas pelo sucesso.

No século seguinte, os holandeses calvinistas fizeram uma tentativa semelhante no nordeste brasileiro (1630-1654). Por algum tempo, tiveram grande êxito tanto na criação de igrejas para os imigrantes europeus quanto na evangelização dos indígenas. Preparavam-se mesmo para traduzir a Bíblia para o tupi e ordenar pastores nativos quando foram expulsos pelos portugueses.

A imigração acabou dando uma contribuição inesperada e decisiva para a implantação definitiva do protestantismo no Brasil. A nova nação independente necessitava de imigrantes para desenvolver a sua precária agricultura e criar indústrias até então inexistentes. A maior parte dos imigrantes disponíveis vinha de nações protestantes da Europa, que, além disso, estavam entre as mais desenvolvidas daquele continente. Com isso, o Império do Brasil, auxiliado pela atuação de políticos e intelectuais liberais, criou progressivamente uma legislação que permitiu a esses imigrantes o livre exercício da sua religião. Eles mesmos não procuraram difundir a sua fé entre os brasileiros, mantendo-se isolados no aspecto religioso, mas a legislação criada para beneficiá-los acabou por favorecer o ingresso e atuação das missões protestantes.

Um último fenômeno a ser destacado é o fato, já amplamente estudado pelos sociólogos, de que as pessoas que experimentam deslocamentos culturais profundos, como é o caso dos imigrantes, tornam-se mais suscetíveis a mudanças de convicção religiosa. Essa circunstância talvez explique o fato de que entre os membros das primeiras igrejas protestantes constituídas de brasileiros havia muitos imigrantes, notadamente portugueses e italianos.

Como aconteceu no passado, também nos dias de hoje o cristianismo continuar a atravessar barreiras geográficas e culturais. Um exemplo bem atual é o dos brasileiros que têm ido residir nos Estados Unidos, Europa e Japão e nesses lugares têm plantado igrejas e evangelizado tanto os seus patrícios como os naturais da terra. Esse é mais um elemento que tem contribuído para formar a grande multidão descrita pelo profeta de Patmos, composta de pessoas de todas as nações, tribos, povos e línguas (Ap 7.9).

Perguntas para reflexão:
1. Por que as figuras do peregrino, do viajante e do estrangeiro se tornaram símbolos tão importantes da vida cristã?

2. Os imigrantes cristãos sempre compartilharam com outros a sua fé? Em que circunstâncias a imigração não foi benéfica para a evangelização?

3. O que é necessário para que a experiência da imigração dê uma contribuição positiva para a obra missionária?

4. Nem todo imigrante é um missionário transcultural. O que dizer do oposto: Será que todo missionário transcultural é um imigrante?

5. O que deve fazer o cristão que vai viver, trabalhar e testemunhar no meio de outro povo para não dar a impressão de que o evangelho é uma coisa estrangeira, vinda de fora?

Sugestões bibliográficas:
BURNS, Bárbara; AZEVEDO, Décio de; CARMINATI, Paulo B. F de. Costumes e culturas: uma introdução à antropologia missionária. Baseado na obra de E.A. Nida. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1988.
CALDAS FILHO, Carlos R. Fé e café. Manhumirim, MG: Didaquê, 1999.STEUERNAGEL, Valdir. Igreja: comunidade missionária – o reino de Deus e o povo peregrino. São Paulo: ABU Editora, 1978.STEUERNAGEL, Valdir. Obediência missionária e prática histórica: em busca de modelos. São Paulo: ABU Editora, 1993.TUCKER, Ruth A. “... Até aos confins da terra”: uma história biográfica das missões cristãs. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1996.WINTER, Ralph D.; HAWTHORNE, Steven C. (Eds.). Missões transculturais. 4 vols: Perspectiva bíblica, Perspectiva histórica, Perspectiva estratégica e Perspectiva cultural. São Paulo: Mundo Cristão, 1987.
A imigração e a evangelização na história missionária

Alderi Souza de Matos

O cristianismo nasceu com uma vocação de universalidade. Os documentos fundantes da igreja deixam claro que a mensagem cristã – o evangelho – deveria ser proclamada indistintamente a pessoas de todos os povos e nações. Assim sendo, desde o início os cristãos atravessaram intencionalmente fronteiras nacionais, étnicas e culturais. Ao fazer isso, a igreja tanto influenciou quanto foi influenciada pelos ambientes nos quais se inseriu, como ocorreu na transição do seu berço judaico original para o mundo greco-romano.

Como não poderia deixar de ser, esse fenômeno também teve enormes repercussões para a expansão missionária da igreja. A extraordinária mobilidade geográfica dos primeiros cristãos foi um dos principais fatores que contribuíram para a rápida difusão da fé nas primeiras décadas e, de fato, nos primeiros séculos.

O maior responsável pelo crescimento da igreja não foram os esforços metódicos e organizados de líderes como o apóstolo Paulo, mas o testemunho informal de cristãos comuns que por onde iam compartilhavam com as pessoas as suas novas convicções.

1. Um tema bíblico marcante
Curiosamente, essa relação entre fé e mobilidade física é um dos temas salientes das Escrituras. Com muita freqüência, os personagens bíblicos foram indivíduos que se deslocaram por longas distâncias, que viveram como nômades, seja por causa de alguma convocação divina, seja em busca de novas oportunidades ou sob pressão de circunstâncias adversas. Entre os exemplos mais conhecidos do Velho Testamento estão os patriarcas, a começar de Abraão, e os filhos de Israel após a sua libertação do cativeiro egípcio (ver Gn 12.1; 23.4; At 7.6; Hb 11.8-10,13). No período do Novo Testamento, Jesus fez o caminho inverso, sendo levado recém-nascido para o Egito, como refugiado da ira de Herodes. Mais tarde, durante o seu ministério itinerante, ele haveria de dizer que não tinha um lugar onde reclinar a cabeça (Mt 8.20).

Não por coincidência, a figura do peregrino, do estrangeiro e do migrante povoa as páginas da Bíblia, como símbolo da vida do cristão neste mundo, caminhando em direção à pátria celeste (ver 1 Pe 1.1,17; 2.11). Às vezes a metáfora aponta na direção oposta, como quando Paulo diz aos gentios efésios que, graças à obra reconciliadora de Deus por meio de Cristo, eles já não são estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus (Ef 2.19). De qualquer modo, a poderosa imagem da peregrinação sempre tem causado forte impacto na consciência cristã e muitas vezes a relação entre fé e migração se manifesta literalmente na vida de muitos cristãos, aqueles que se deslocam por causa de sua fé ou aqueles que, ao se deslocarem, contribuem para a difusão da fé.

2. Alcançando e sendo alcançados
Obviamente, nem sempre na história da igreja os grupos imigrantes foram agentes da evangelização, e sim objeto da mesma. Isso aconteceu com os impressionantes deslocamentos humanos que foram as “invasões” bárbaras na Europa dos séculos quarto e quinto. Na verdade, o que esses povos da Ásia e da Europa oriental fizeram foi migrar para o rico Império Romano em busca de melhores condições de vida. E à medida que foram conquistando, foram conquistados. Chegaram pagãos e se tornaram cristãos. Foi o caso dos francos, burgúndios, vândalos, alanos, suevos e outros. Uma interessante exceção foram os visigodos. Esse povo, oriundo da região do mar Negro, já havia sido cristianizado antes de se deslocar para a Europa ocidental. Todavia, haviam adotado uma forma dissidente de cristianismo, o arianismo, que negava a plena divindade de Cristo. Foi somente mais tarde, quando já haviam se estabelecido firmemente na Península Ibérica, que abraçaram o cristianismo ortodoxo, trinitário.

Também foi curioso o que aconteceu nas Ilhas Britânicas. Nos primeiros séculos da era cristã, o cristianismo se implantou entre vários povos daquela região, notadamente os celtas e os bretões. Não se sabe exatamente como isso aconteceu, mas um nome associado com esse período é o de Patrício, que viveu no quinto século. Todavia, em meados daquele século, dois povos pagãos do norte da Europa, os anglos e os saxões, invadiram a Britânia, que assim passou a chamar-se Inglaterra (terra dos anglos). Esses povos eliminaram boa parte do cristianismo celta e foram eventualmente cristianizados pelos esforços de missionários enviados pelo papa Gregório Magno (590-604). Tais fenômenos se repetiram muitas vezes ao longo da Idade Média. Outra página gloriosa das missões cristãs foi o trabalho dos nestorianos na Ásia, durante muitos séculos. Esse grupo, embora marginalizado pela igreja oficial e considerado herético, levou a mensagem de Cristo a muitos lugares inóspitos e longínquos que nunca haviam sido atingidos pelo cristianismo majoritário.

As grandes navegações e os grandes descobrimentos efetuados pelos espanhóis e portugueses nos séculos 15 e 16 produziram um fato novo: pela primeira vez na história da igreja, grandes contingentes populacionais cristãos se transferiram para outras partes do mundo e contribuíram para a expansão da fé em territórios nunca antes alcançados. Foi o caso de muitas regiões da Ásia e da África, e mais especialmente da América Latina. Na verdade, a conquista e colonização dessa última região foi ao mesmo tempo um empreendimento político, comercial e religioso. Os conquistadores tinham a consciência de estarem expandindo não só os territórios de seus soberanos, mas os domínios da cristandade. Podem ser questionados o tratamento dados aos aborígenes e a qualidade da cristianização dos mesmos, mas trata-se de um caso em que se vê a nítida relação entre a imigração e a difusão da fé cristã.

3. As missões protestantes
É um fato conhecido da história das missões que os protestantes inicialmente foram um tanto lentos em se envolver com a evangelização do mundo. Nos séculos 16 e 17 houve apenas alguns esforços esporádicos e limitados. Todavia, quando esses esforços se tornaram mais organizados e consistentes, a imigração foi um dos recursos que mais contribuíram para a obra missionária. Um bom exemplo inicial foi o dos irmãos morávios, que migraram com suas famílias para muitas regiões difíceis e insalubres com o fim de viver entre outros povos, identificar-se com eles e anunciar-lhes o evangelho.

Todavia, ainda antes dos morávios, outro grupo de migrantes iniciou um experimento que teve amplas conseqüências para o protestantismo e para as missões cristãs – os puritanos da Nova Inglaterra. Os puritanos eram os calvinistas ingleses que lutavam pela plena reforma da Igreja da Inglaterra. Frustrados em seus objetivos e crescentemente reprimidos pelas autoridades seculares e eclesiásticas, resolveram procurar outras terras para viver de acordo com as suas convicções. Após uma breve tentativa mal-sucedida na Holanda, decidiram transferir-se para o Novo Mundo, a América, contribuindo decisivamente para o surgimento dos Estados Unidos. Embora inicialmente eles não tivessem uma motivação missionária, em pouco tempo começaram a evangelizar os indígenas e mais tarde colaboraram para criar uma cultura religiosa que desembocou no gigantesco empreendimento missionário norte-americano do século 19.

Graças à imigração, o protestantismo se tornou a expressão religiosa dominante em muitos outros países, como o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia e a África do Sul, nos quais se radicaram elementos reformados, anglicanos e luteranos, entre outros. Em muitos países, a presença protestante, ainda que minoritária, também obteve o concurso decisivo da imigração. Ao mesmo tempo, não se pode adotar nessa matéria uma atitude triunfalista, porque em muitos casos a imigração e a colonização fizeram mais mal do que bem, produzindo uma verdadeira anti-evangelização. O exemplo clássico é a África do Sul, em que algumas igrejas compactuaram com o perverso sistema de discriminação e opressão racial conhecido como apartheid.

4. A experiência brasileira
Curiosamente, foi no Brasil que ocorreu a primeira tentativa da história do protestantismo mundial no sentido de evangelizar um povo não-cristão. Isso se deu em conexão com uma colônia francesa criada na baía da Guanabara em 1555, a França Antártica. A pedido do líder do empreendimento, Nicholas Durand de Villegaignon, o reformador João Calvino e a Igreja Reformada de Genebra enviaram catorze colonos, entre eles dois pastores. Esses imigrantes-missionários tinham dois objetivos: implantar uma igreja reformada entre os franceses e evangelizar os silvícolas. Nenhum desses objetivos pôde ser alcançado e quatro dos pioneiros acabaram sendo martirizados, mas esse evento se tornou um marco de grande importância na história das missões, nem sempre caracterizadas pelo sucesso.

No século seguinte, os holandeses calvinistas fizeram uma tentativa semelhante no nordeste brasileiro (1630-1654). Por algum tempo, tiveram grande êxito tanto na criação de igrejas para os imigrantes europeus quanto na evangelização dos indígenas. Preparavam-se mesmo para traduzir a Bíblia para o tupi e ordenar pastores nativos quando foram expulsos pelos portugueses.

A imigração acabou dando uma contribuição inesperada e decisiva para a implantação definitiva do protestantismo no Brasil. A nova nação independente necessitava de imigrantes para desenvolver a sua precária agricultura e criar indústrias até então inexistentes. A maior parte dos imigrantes disponíveis vinha de nações protestantes da Europa, que, além disso, estavam entre as mais desenvolvidas daquele continente. Com isso, o Império do Brasil, auxiliado pela atuação de políticos e intelectuais liberais, criou progressivamente uma legislação que permitiu a esses imigrantes o livre exercício da sua religião. Eles mesmos não procuraram difundir a sua fé entre os brasileiros, mantendo-se isolados no aspecto religioso, mas a legislação criada para beneficiá-los acabou por favorecer o ingresso e atuação das missões protestantes.

Um último fenômeno a ser destacado é o fato, já amplamente estudado pelos sociólogos, de que as pessoas que experimentam deslocamentos culturais profundos, como é o caso dos imigrantes, tornam-se mais suscetíveis a mudanças de convicção religiosa. Essa circunstância talvez explique o fato de que entre os membros das primeiras igrejas protestantes constituídas de brasileiros havia muitos imigrantes, notadamente portugueses e italianos.

Como aconteceu no passado, também nos dias de hoje o cristianismo continuar a atravessar barreiras geográficas e culturais. Um exemplo bem atual é o dos brasileiros que têm ido residir nos Estados Unidos, Europa e Japão e nesses lugares têm plantado igrejas e evangelizado tanto os seus patrícios como os naturais da terra. Esse é mais um elemento que tem contribuído para formar a grande multidão descrita pelo profeta de Patmos, composta de pessoas de todas as nações, tribos, povos e línguas (Ap 7.9).

Perguntas para reflexão:
1. Por que as figuras do peregrino, do viajante e do estrangeiro se tornaram símbolos tão importantes da vida cristã?

2. Os imigrantes cristãos sempre compartilharam com outros a sua fé? Em que circunstâncias a imigração não foi benéfica para a evangelização?

3. O que é necessário para que a experiência da imigração dê uma contribuição positiva para a obra missionária?

4. Nem todo imigrante é um missionário transcultural. O que dizer do oposto: Será que todo missionário transcultural é um imigrante?

5. O que deve fazer o cristão que vai viver, trabalhar e testemunhar no meio de outro povo para não dar a impressão de que o evangelho é uma coisa estrangeira, vinda de fora?

Sugestões bibliográficas:
BURNS, Bárbara; AZEVEDO, Décio de; CARMINATI, Paulo B. F de. Costumes e culturas: uma introdução à antropologia missionária. Baseado na obra de E.A. Nida. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1988.
CALDAS FILHO, Carlos R. Fé e café. Manhumirim, MG: Didaquê, 1999.STEUERNAGEL, Valdir. Igreja: comunidade missionária – o reino de Deus e o povo peregrino. São Paulo: ABU Editora, 1978.STEUERNAGEL, Valdir. Obediência missionária e prática histórica: em busca de modelos. São Paulo: ABU Editora, 1993.TUCKER, Ruth A. “... Até aos confins da terra”: uma história biográfica das missões cristãs. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1996.WINTER, Ralph D.; HAWTHORNE, Steven C. (Eds.). Missões transculturais. 4 vols: Perspectiva bíblica, Perspectiva histórica, Perspectiva estratégica e Perspectiva cultural. São Paulo: Mundo Cristão, 1987.

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